segunda-feira, 12 de março de 2012

O Homem Mais Feliz do Mundo


Este é o homem mais feliz do mundo?
Segundo a ciência, a resposta é sim. Mas o próprio monge francês Matthieu Ricard diz que a questão do título não importa. Mergulhe na mente do budista (e Phd em biologia) e entenda por que você não precisa viver em um mosteiro para ser feliz. Basta começar a meditar
TEXTO E FOTOS: HAROLDO CASTRO, DE KATMANDU
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Inspiração nas alturas: Matthieu Ricard no mosteiro Shechen, em Katmandu, Nepal. O monge francês vive no Himalaia há 36 anos
No ano passado recebi centenas de e-mails de correntes. Um deles era sobre o "homem mais feliz do mundo". Abri o arquivo, vi que se tratava de um monge francês residente no Himalaia e depois descartei o e-mail. Retive o nome do afortunado, mesmo achando estra-nho que um budista pudesse fazer tanto marketing pessoal. Alguns meses depois, quando preparava minha viagem ao Nepal, lembrei que o tal monge da internet vivia em Katmandu e fui atrás dele.
Matthieu Ricard mora no monastério Shechen, no bairro tibetano Bouda. Para chegar lá, naveguei por um emaranhado de ruelas. Passei por lojas de artesanato para turistas e de artigos religiosos para devotos. Entrei e dei de cara com um imponente e colorido prédio quadrado, de arquitetura tibetana: o templo principal. Ao seu redor estão os aposentos dos religiosos, com dezenas de portinholas enfileiradas em dois andares. Gyurmed Lodro, um monge nepalês de 29 anos, recebe-me. "Somos 300 aqui. Os mais idosos vieram como refugiados do Tibete, chegaram cruzando as montanhas. Os jovens nasceram no Nepal ou na Índia", diz Gyurmed. Ele me mostrou a clínica do monastério, um trabalho social que beneficia a comunidade tibetana local. "Os pobres pagam apenas a soma simbólica de 20 rúpias (R$0,50). Atendemos 45 mil pacientes por ano com homeopatia, acupuntura, medi-cina natural tibetana, clínica dental e medicina da mulher." Orgulho dos membros do mos-teiro Shechen, a clínica é financiada por doações de budistas estrangeiros e os direitos autorais dos livros de Matthieu Ricard.

Gyurmed levou-me até o escritório do monge francês, no segundo andar de um dos prédios de Shechen. Ricard está visivelmente ocupado. Sobre sua mesa de trabalho, repleta de papéis e livros, repousa um passaporte europeu. "Viajo amanhã para Paris. Enquanto conversamos, aproveitarei para arrumar minha papelada", diz. Conto que o procuro por causa de um spam. Ele sorri, abana a cabeça e dá um suspiro profundo. "Nunca teria me autoproclamado como o homem mais feliz do mundo. Isso começou com um documentário da televisão austríaca. Em seguida, o jornal britânico 'The Independent' publicou uma reportagem anunciando que eu era a pessoa mais feliz do mundo", afirma. "O que aconteceu é que participei de um estudo na Universidade de Wisconsin [EUA], para medir os benefícios da meditação. Todos os 12 voluntários possuíam uma longa experiência, com mais de 10 mil horas de práticas meditativas", diz Ricard.
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Arte e meditação: monge chega a um templo do mosteiro Tashilhunpo, em Shigatse, no Tibete, para sua prática diária
Os participantes enfrentaram uma bateria de eletroencefalogramas e tomografias cerebrais. Os resultados comprovaram que o grupo apresentava um alto nível de ondas gama (de "emoções positivas") no córtex pré-frontal esquerdo, local associado com a felicidade e a alegria. No lado direito, que lida com ansiedades e frustrações, as ondas eram inexistentes. Talvez para exercitar a humildade, Ricard não confirma que seus resultados foram os melhores. "A importância da pesquisa foi provar que a mente é maleável. As conexões no cérebro não são fixas. Com esforço e tempo, elas podem ser modificadas, assim como a maneira como interpretamos o mundo", diz.
Filho do filósofo Jean-François Revel e da pintora Yahne Le Toumelin, o monge é autor de vários livros. Dois estão disponíveis no Brasil (veja o quadro "Vá fundo"). Ele também é fotógrafo, com vários ensaios publicados. Por ter nascido em um berço rodeado de intelectualidade e arte, pergunto se as influências externas ajudam uma pessoa a ser feliz. "Na busca da felicidade, geralmente olhamos para fora, procuramos elementos externos e queremos possuir bens materiais. Quando as coisas vão mal, queremos corrigir externamente. Mas o controle que temos dos elementos exteriores é limitado e geralmente ilusório", afirma. "Apenas uma porção pequena da felicidade, digamos entre 10% e 15%, relaciona-se com condições externas. Certamente, é mais difícil ser feliz se não ultrapassamos o estado de miséria. Uma boa educação, ter acesso à informação ou viajar ajudam. A genética também entra nessa equação: cerca de 25% de nosso potencial parece ser determinado por nossos genes. Mas tudo isso não é o suficiente para um indivíduo alcançar a felicidade. Os restantes 60% ou mais dependem de nosso estado mental. É a mente que traduz as condições externas em felicidade." Ou em sofrimento.
As dores da alma formam um tópico notável no budismo. A busca de sua compreensão e eliminação foram o tema central do primeiro sermão de Sidarta Gautama, o Buda, no ano 528 a.C. em Sarnath, na Índia. O ensinamento tem quatro princípios simples, chamados de Nobres Verdades. A vida é uma cadeia de sentimentos. A causa do sofrimento é o apego, a ignorância ou a aversão. Para que o sofrimento cesse, é necessário cultivar o amor incondicional, desprender-se dos objetos de desejo e vencer a ignorância e a aversão. Enfim, para que isso aconteça, o Buda recomenda seguir um caminho de oito passos corretos (a compreensão, o pensamento, a linguagem, a ação, o modo de vida, o esforço, a consciência e a concentração corretos), sempre desenvolvendo a compaixão.



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Monja feliz: Todzi, 18 anos, descobre o Tibete em sua primeira peregrinação. Ela mora na China, mas seus antepassados são tibetanos
"A mente é a especialidade do budismo", diz Ricard. "Não considero o budismo uma religião. Não perdemos tempo discutindo Deus. A questão é irrelevante. Buscamos saber como a mente funciona. Precisamos refinar a percepção de nossa realidade." Aí é que entra o papel da meditação. Uma mente mais tranqüila responde melhor aos desafios da vida, enquanto as emoções descontroladas levam ao caminho oposto. O ódio, a inveja, a raiva ou a arrogância são sentimentos que minam a felicidade. Parece simples. Mas por que continuamos sofrendo? Como se estivéssemos enfeitiçados por uma obsessão, persistimos em focar nossa atenção no sofrimento. Isso só provoca o aumento da agonia. Quando um tema nos angustia, por que nossos pensamentos insistem em regressar à origem da dor? A resposta está em nossa própria mente: ela não tem o treinamento adequado. Os sábios budistas confirmam que não basta erradicar todo e qualquer tipo de sofrimento para encontrar a felicidade. "Além de deixar de lado as emoções negativas, também devemos desenvolver as positivas", diz Ricard.
O OUTRO CANDIDATO
O título de "homem mais feliz do mundo" de Matthieu Ricard é dividido com ao menos mais um monge budista. O nepalês Yongey Mingyur Rinpoche participou das mesmas pesquisas que Ricard, supervisionadas pelo professor Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin (EUA). Rimpoche também alcançou elevados índices de atividade das ondas gama. Escreveu um livro, já traduzido para o português, "A Alegria de Viver". Seu colega Matthieu Ricard assinou o prefácio da edição francesa. "Em sua essência, o budismo é muito prático", escreve Mingyur Rinpoche. "Trata-se de fazer coisas que encorajem a serenidade, a felicidade e a confiança - e evitar outras que provoquem a ansiedade, a desesperança e o medo."
Ele se baseia no princípio de que dois estados mentais não podem ocorrer simultaneamente. "Podemos ter um acesso de amor e outro, imediatamente depois, de ódio. Mas não podemos sentir ódio e amor ao mesmo tempo por uma mesma pessoa ou objeto", afirma o monge. "Devemos habituar nossa mente a substituir emoções negativas por positivas. Quanto mais cultivarmos o amor e a bondade, menos espaço teremos para a raiva e o ódio em nossa paisagem mental. É importante saber quais são os antídotos que correspondem a cada uma de suas emoções negativas."
Há quem diga que a felicidade é uma sucessão de pequenos prazeres. Mas Ricard ressalta que "o prazer é uma experiência fugaz - depende de circunstâncias exteriores, de um momento ou lugar específico. Quase sempre está ligado a uma ação". Ele lembra que algumas pessoas sentem prazer até em se vingar e em torturar os outros. "A felicidade autêntica não está ligada a uma atividade. É um estado de ser, um profundo equilíbrio emocional." Ricard argumenta que não existe razão para não buscarmos sensações agradáveis, sejam elas relacionadas com a natureza, com a arte ou ao lado de pessoas queridas. "Os prazeres tornam-se obstáculos somente quando perturbam o equilíbrio da mente e nos levam à obsessão por gratificações. O prazer não é inimigo da felicidade. Se é vivido num estado de paz interior e liberdade, o prazer adorna a felicidade, sem obscurecê-la", afirma.
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Retratos da felicidade budista (da esquerda para a direita): a paz de espírito de um noviço do monastério Taktsang, no Butão; a alegria de uma birmanesa no santuário da Rocha Dourada em Kyaikhtiyo, Mianmar; o sorriso franco de um jovem religioso do mosteiro Hemis, no Ladakh; a introspecção de um monge em prece no templo Jokhang, no Ladakh. Seus dedos entrelaçados formam um gesto sagrado, um mudra
Meu diálogo com Ricard estende-se por mais tempo do que eu esperava. Apesar de ele não demonstrar nenhum estresse com os preparativos de sua viagem, meu desconfiômetro avisa que devo encerrar a entrevista. Ele reconhece a gentileza e, generoso, oferece, em formato eletrônico, os originais em francês de seus dois livros mais célebres. Na saída de seu escritório, encontramos um casal de budistas franceses. Eles perguntam qual deve ser a postura em relação à China e ao Tibete. "Conversem com amigos, discutam o tema e falem com seus deputados. É importante informar a todos sobre o genocídio cultural que acontece no Tibete", responde.
Saio do escritório de Ricard e ouço toques de tambores. Atraído pelo som, chego ao templo principal de Shechen. Alguns monges, visivelmente atrasados para o ritual, retiram suas sandálias e sobem a escadaria com agilidade. A enorme porta decorada está aberta. Sinto-me convidado. Depois de conversar com Ricard sobre as vantagens de desenvolver uma mente mais sadia, em harmonia com o mundo e consigo mesmo, não hesito em entrar no templo. Encontro uma almofada e sento para meditar. Deixo que os mantras embalem minha mente. Tomo consciência de onde estou. Agradeço o presente e lembro-me daquele spam que me inspirou a encontrar um ser humano tão notável como Matthieu Ricard. Talvez ele não seja o "homem mais feliz do mundo", mas está fazendo sua parte para ajudar outras pessoas a serem mais felizes.

Haroldo Castro tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, repórter, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Conhece mais de 130 países e morou no Brasil, na França e nos EUA. Encontre um link para seu blog, o ótimo Viajologia, em www.galileu.globo.com

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